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Adios, Noniño!
24 de março de 2008, Bahia Blanca

Saímos de Pelotas por volta do meio dia em direção ao Chuí. A paisagem é muito monótona e cansativa. Só se vê pastos e arrozais. Cruzamos a fronteira e logo nos surpreendemos com o atendimento cortês e polido dos guardas de fronteira uruguaios. Mais tarde, pudemos perceber que não apenas os guardas, mas o povo uruguaio como um todo é, sem dúvida alguma, o mais civilizado e educado das Américas. São super solícitos, estão sempre dispostos a ajudar, e portam-se como os ingleses : bom dia, obrigado, por favor, com licença e perdão são palavras de ordem praticadas a todo o momento, e não apenas para rechear dicionários. Além de educado, o uruguaio é muito discreto, respeitoso e de inegável bom gosto, tanto no modo de morar quanto na maneira de vestir. Verdadeiros fidalgos. Foi um grande prazer para nós conviver, ainda que por poucos dias, com aquela gente boa e acolhedora. Chegamos a Punta Del Leste já ao cair da noite. Para nosso azar, era 5ª. feira santa, e no dia seguinte iniciava-se o feriado de páscoa. Os hotéis e pousadas estavam lotados, sobretudo de argentinos e brasileiros. Depois de muito procurar, conseguimos um quarto muito bom em um hotel na entrada da cidade (Dom Pepe, Av. General Artigas s/n, info@hoteldompepe.com.uy).
Apesar de um pouco afastado da praia e da badalação, e do ruído provocado pelo trânsito intenso (ele está situado em uma das principais rotas de acesso à cidade), o Dom Pepe é um hotel muito confortável, com jardins bem cuidados, uma piscina extremamente agradável, quartos muito espaçosos e ensolarados, e com um bom café da manhã. Punta é uma cidade muito sofisticada, com um paisagismo urbano de fazer inveja a qualquer cidade de primeiro mundo. Imensos campos de golfe, vários cassinos e casas de veraneio de muito bom gosto, sem exceções, apesar dos estilos bem diferenciados. Os prédios na orla de Punta são deslumbrantes, com varandas a perder de vista. São de deixar os paulistas do Panamby e os cariocas da Delfim Moreira de queixo caído... Fomos jantar no Lo de Tere, recomendado pelo pessoal do hotel. Foi um jantar inesquecível. A Márcia pediu um caranguejo de entrada (segundo ela, foi o melhor que já comeu na vida - e olha que ela já comeu muito caranguejo...), seguido de uma trança de pescados, que ela quase comeu de joelhos. Eu me dei por satisfeito com as super saborosas costeletinhas de cordeiro no molho de menta, tudo regado por um fantástico Cabernet Terrazas 2002, envelhecido durante alguns anos na própria garrafa. Divino, e sem palavras para descrever. Não demos muita sorte com os outros restaurantes que visitamos. O Andrés é muito famoso, e ali V. é atendido pelo próprio Andrés em pessoa. A comida era boa e o vinho honesto, mas nada que merecesse registro. Estivemos também no La Posta Del Cangrejo, em La Barra, e no hotel bem em frente, recomendado por meu amigo Bolívar, mas lamentavelmente, não havia uma alma viva no restaurante do hotel, nem naquele que fica em frente. Acabamos abortando a tentativa, e seguimos para o Los Caracoles, um dos mais freqüentados em Punta, esperando encontrar algo próximo ao homônimo de Barcelona, nosso restaurante predileto. Que decepção! Privilegiam a quantidade e o preço em relação à qualidade. Servem porções gigantescas (devem ser feitas em uma imensa panela), e te nocauteiam logo no primeiro round. Caminhamos todos os dias pelas praias de Punta, longas e agradáveis, embora não se comparem às nossas. Cheias de gente bonita praticando esportes ou simplesmente se bronzeando, muitas delas tomando mate sob o sol do meio dia. Enfim, a cidade é uma excelente proposta para os que gostam de se hospedar com conforto e de tirar proveito da excelente cozinha uruguaia, a preços suportáveis. Saímos de Punta após três noites de descanso, boa gastronomia, e muita hospitalidade. As estradas uruguaias são ótimas, Apesar da mão dupla, são bem sinalizadas e pavimentadas, e permitem desenvolver boa velocidade de cruzeiro (ao redor de 130 p/h, muito embora o limite seja de 90. Sorte nossa – e dos demais viajantes – que não há fiscalização).

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Em Montevidéu, fomos diretamente para o Mercado Central, onde já havíamos estado várias vezes, loucos para comer no balcão do nosso restaurante favorito, o tradicional Estância del Puerto, onde se come sentado em banquetas, apreciando o famoso estilo uruguaio de churrasquear em enormes grelhas inclinadas a 45º. Foi uma festa que começou com uma porção bem servida de chinchulin (deliciosas tripas de boi grelhadas que devoramos em poucos minutos), seguida de bife de chorizzo e de lomo, acompanhados de salada russa e fritas. Para refrescar o calor da brasa, pedimos aquela cerveja Pilsen de litro, geladinha e deliciosa, que degustamos com imenso prazer enquanto acompanhávamos o espetáculo proporcionado pelos churrasqueiros e suas maravilhosas iguarias em meio àquele enorme braseiro – filé de merluza do Prata, costelas de boi à moda, pimentões sapecados, riñones, e por aí vai. Faz bem para os olhos, e mais ainda para o estômago. De lá seguimos para Colônia do Sacramento, a cerca de 200 kms de Montevidéu, por recomendação do meu amigo Luca (segundo o qual tudo na vida vale a pena, enquanto a alma não é pequena), não apenas pelos sublimes encantos, mas também porque naquele trecho o Prata é mais estreito, e por conseguinte, mais rápido para atravessar, a preço mais razoável do que aquele praticado em Montevidéu. Colônia é uma cidade lindíssima, tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade. Foi construída pelos portugueses, que pretendiam fincar pé em uma das margens do Prata, e mudou de mãos várias vezes. Deixaram como legado a linda arquitetura dos casarões e das ruas da cidade, que lembram muito Parati, pavimentada com pedras brutas e decorada com azulejos portugueses incrustados aqui e ali. Para aqueles que gostam de história como eu, é bom lembrar que o Uruguai já fez parte do território brasileiro, na época em que integrava a Província Cisplatina. Artigas – herói nacional – obteve o grande feito de aglutinar as forças políticas locais que se encontravam dispersas, e aproveitou a maré liberalizante marcada pelos movimentos de independência que pipocavam na América (a Argentina tornou-se independente em 1810, bem antes do Brasil) para conquistar soberania. Pegamos o último buquebus (barcaça que transporta carros e passageiros ao outro lado do Rio da Prata), pois como era feriado, não encontramos um único hotel disponível na cidade. Achei caro (mais de 220 dólares só para transportar o carro durante 50 minutos de travessia, que sequer pode ser apreciada em meio àquela escuridão toda), e chegamos a Puerto Madero, em Buenos Aires por volta das 10 da noite.

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Saímos ã procura de hotéis sabendo que ia ser difícil – era sábado de aleluia, e além do domingo de páscoa, os argentinos comemoram também na 2ª. Feira uma pós-pascoa. Depois de muito procurar, acabamos nos hospedando no Hotel El Conquistador, que nos pareceu ser de boa aparência, a duas quadras da Florida. Assim que acabamos de fazer o check-in, notamos que um ônibus parou em frente ao hotel e descarregou dezenas de brasileiros ávidos por compras, fazendo aquela bagunça infernal, em parte provocada pela euforia de muitos que saíam do Brasil pela primeira vez na vida. Que me perdoem meus irmãozinhos brasileiros, mas aquela turma (ou melhor, aquela turba) é de tirar qualquer um do sério. Chegam já querendo levar vantagem em tudo, passando à nossa frente na fila, ou simplesmente ignorando-a, acotovelando-se, soltando fumaça no nosso rosto, falando alto, às gargalhadas, daquele jeitinho que Vv. sabem como. Lamentável. Buenos Aires continua linda, monumental, com praças bem cuidadas, cafés e confeitarias que mais parecem templos, onde se respira ar europeu. Apesar de todos os encantos, está cada vez mais decadente. Muitos mendigos e pedintes nas ruas sujas e com as calçadas esburacadas. No feriado a impressão era ainda mais desoladora, com boa parte das lojas fechadas, dando um ar de abandono. O portenho – ou seja, o argentino que reside em Buenos Aires – é, em sua maioria, mal educado, estressado e mal humorado. Respondem rispidamente os nossos pedidos de informação, não respeitam as leis de trânsito, e também são adeptos da lei de Gerson. Felizmente, essa não é a característica dos demais argentinos, que se mostram fraternos e solidários em todas as situações, sempre prontos para socorrer-nos. Passamos o dia descansando, planejando a viagem e redigindo o blog. Fomos ä praça 25 de maio, pertinho do hotel, onde pudemos descansar e ler sob aquele sol generoso de outono.

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Na manha seguinte saímos em direção a Bahia Blanca, rumo sul. Decidimos seguir para pela Ruta 3, totalmente asfaltada e bem sinalizada. Saímos da cidade embalados pelos últimos acordes de “Adios Noniño”, que tocava no rádio e no coração. O som melancólico do bandaleon de Piazzola traduzia com perfeição absoluta a doce e elegante decadência de Buenos Aires e do povo portenho. A cidade foi ficando para trás, esvaindo-se como um conto de Borges, até sumir no retrovisor.

Vinicius e Marcia