Chegamos a Porto Natales por volta das 16 horas. O tempo estava zangado e fazia frio, mas não chovia.
Três quilômetros antes de chegarmos à cidade deparamo-nos com uma placa na estrada que indicava hospedagem denominada “Llannuras de Diana”, e convidava os transeuntes a conhecê-la.
Paramos ali como quem não quer nada, e ficamos surpresos com a grandeza e o luxo daquele complexo turístico.
O hotel é gigantesco, e nos pareceu um verdadeiro exagero a sua instalação naquele fim de mundo.
No térreo, há um conjunto de piscinas térmicas e cobertas, spa e sauna, que vinha muito a calhar naquele friozinho.
Na área externa, cavalariças com animais de raça lindíssimos, disponíveis para passeio na imensidão dos parques que circundam o hotel, além de quadras de tênis e squash (pena eu não ter trazido minha raquetinha), e um imenso lago artificial.
O restaurante anunciava comidas preparadas por um chef francês, a um preço bem mais baixo do que aquele que era cobrado pelas sanduicherias da cidade.
O quarto era gigantesco, com uma cama maior ainda, oferecendo muito espaço e conforto.
A diária estava em US$ 120.00 por dia, com café da manhã, estacionamento e acesso irrestrito a Internet e a todas as áreas de lazer.
Diz o ditado que quando a esmola é muita, o santo desconfia. Pois bem, desconfiados que estávamos, seguimos para Porto Natales para fazer uma prospecção nos hotéis mais centrais.
A maioria dos bons hotéis estava com preço bem superior àquele praticado pelo “Diana”. Os mais em conta eram voltados especificamente para os mochileiros – a maioria europeus, perambulando em todos os pontos da cidade – e que não ligam a mínima para conforto e menos ainda para uma boa refeição.
Voltamos rápido para o “Diana”, e resolvemos nos hospedar lá por duas noites, para descansar um pouco e aproveitar tudo o que ele oferecia de bom.
Feito o check-in, constatamos que éramos os únicos hóspedes daquele mega- empreendimento. Os outros 164 quartos estavam simplesmente sem ocupação, e também não havia qualquer previsão de ocupação nos próximos dias.
Mais tarde ficamos sabendo que o hotel pertencia a um fundo de pensão (“Caja de Compensasion Los Andes”), e assim como ocorre no Brasil, também está sujeita a toda a sorte de falcatruas, dentre as quais a de investir muito dinheiro bom em um empreendimento sem qualquer perspectiva de lucratividade. Isso nos deixou ao menos um pouco consolados.
Afinal, não somos os únicos a sofrer com a malversação do dinheiro público, não é?
Desfrutamos ao máximo os confortos e mimos oferecidos pelo hotel. Foram dois dias de muito relax, de noites muito bem dormidas, bons vinhos, e de altíssima gastronomia. Tudo isso só para nós dois.
Parecia um bom sonho, daqueles que não queremos que terminem nunca...
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Porto Natales em si não oferece qualquer atrativo a merecer registro. É uma cidade pequena, à beira mar, com poucos predicados, apesar de simpática.
Partimos de lá logo após o café da manhã, em direção ao Parque Nacional de Torres Del Paine. No caminho, paramos para fotografar o maciço de Dolores – linda montanha nas imediações da cidade, e conhecer “Las Cuevas del Milodór”, conjunto de enormes cavernas habitadas pelo homem há 10.000 anos atrás, que convivia pacificamente com um animal pré-histórico chamado Milotór, assemelhado a um urso gigante, e que habitava aquelas paragens até ser definitivamente extinto.
Foi sem dúvida um passeio proveitoso e instrutivo. Valeu mesmo a pena.
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Chegamos ao Parque Nacional de Torres Del Paine ao final da tarde, e tratamos logo de procurar um hotel.
O melhor da região é o Explora. No entanto, além da diária proibitiva (US$ 800.00 a diária), eles só aceitam reservas com dois meses de antecedência.
É mesmo coisa só para bacana.
Acabamos nos hospedando na Hosteria Pehoe, que se destaca por estar localizado na ilha do mesmo nome, em meio ao lago também do mesmo nome.
Que diferença em relação ao “Diana”... Tudo muito simples, embora muito limpo e aconchegante. Encanta também pela enorme atenção e carinho que recebemos de todos os que lá trabalham.
Ainda houve tempo para escalarmos o Mirante de Pehoe (45 minutos de subida bem íngreme), de onde se descortina o lago todo, boa parte do parque e as famosas torres.
Torres Del Paine são uma formação geológica impressionante, majestosa, imponente. Trata-se de um conjunto de montanhas com picos pontiagudos cobertos de neve, que refletem nas águas dos vários lagos que banham o parque, tão azuis quanto as do Caribe (sem exagero algum!).
É um verdadeiro monumento erigido pela natureza, de beleza indescritível. Nos faz sentir pequeninos em meio a tanta beleza selvagem, e convida à reflexão. Foi simplesmente uma overdose de cenários de raríssima beleza, apreciada sob um pálido sol de outono, que acalentava nosso corpo e nossa alma.
Passamos todo o dia seguinte percorrendo o parque, que parece ter sido feito especialmente para exploradores. Há trilhas de todos os tipos e de todos os graus de dificuldade, que podem ser escolhidas pelos visitantes de acordo com seus limites. Fizemos algumas delas a pé, outras de carro, e tiramos fotos maravilhosas, que ficarão em nossa memória para sempre.
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Saímos de Torres Del Paine no fim da tarde. Fomos com o coração apertado em direção a El Calafate, já na Argentina, lamentando que havia ainda muito a explorar.
Chegamos tarde na cidade, e após rápida busca nos hotéis, decidimo-nos pelo Lar Aike, uma charmosa casa com uma lareira aconchegante e uma recepção mais do que calorosa.
A diária nos custou 180 pesos argentinos por dia (equivalente a cerca de US$ 60.00 por dia), com café da manhã, estacionamento e acesso livre à internet wi-fi, desde que pagos em efetivo (mais um consolo: na Argentina, assim como no Brasil, a prática do caixa dois - ou recursos não contabilizados, como queiram - é escancarada, e muito popular).
Um pequeno parêntese para fazer uma crítica ácida ao sistema de Internet no sul do continente : estão todos na idade da pedra. O tal wi-fi é só para gringo ver, porque o acesso é extremamente difícil, e uma vez obtido, torna-se necessário enfrentar o segundo round, que é a velocidade lentíssima dos servidores.
Acho que pelo acesso discado a navegação seria mais rápida...
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Fazia muito frio e no final da tarde a chuva que caia transformou-se em neve, proporcionando um espetáculo único, que não presenciávamos há uns bons três anos. Lindo, mas ao sairmos para jantar ficamos sensibilizados com a multidão de cachorros vira-lata vagando soltos pela cidade, em busca de algo para comer.
Compramos um saco de pães, e no caminho para o restaurante, distribuímos muitos deles para saciar, ainda que temporariamente, a fome daqueles pobres amigos, condenados a andar sem direção pela cidade para não morrer congelados.
Lembramo-nos com saudade de nossos dois buldogues vagabundos que ficaram em casa desfrutando toda a mordomia, dormindo em um quarto quentinho, e com duas refeições diárias...
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No dia seguinte a neve parou mas a chuva voltou. Era uma chuva fina e insistente, que judiava muito, agravada por um vento cortante.
Seguimos de carro para Perito Moreno, um imenso glaciar azul anil, de tirar o fôlego das mais insensíveis almas.
Os glaciares são formações de gelo esculpidas pelo vento, que compacta as massas de neve depositadas nas montanhas.
Com o calor do sol, vão se derretendo e dando origem a imensos icebergs, que flutuam pelo Lago Argentino, até desaparecer por completo.
O fenômeno do aquecimento global reduziu drasticamente as áreas dos glaciares (pudemos presenciar isso tanto aqui quanto no Alasca). De nossa parte, só nos resta lamentar a ausência de políticas governamentais que permitam reduzir a destruição gradual de monumentos lindos como esse.
Foi um passeio maravilhoso, apesar da chuvinha que nos importunou o tempo todo.
Impossível descrever com palavras tudo o que vimos (acho que precisaríamos muito mais do que as mil palavras mencionadas pelo ditado chinês...).
Somente as fotos poderão dar uma idéia do que seja isso.
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No dia seguinte, mais uma aventura. Desta feita, um passeio de catamarã pelo Lago Argentino, para visualizar outros glaciares, não tão bonitos quanto o Perito Moreno, mas também impressionantes, sobretudo quando vistos de tão perto.
Pena que a chuva fina da manhã anterior transformou-se em chuva grossa, que não parou de cair durante todo o passeio de oito horas de duração.
Ainda assim, deu para ver tudo de pertinho e para tirar fotos maravilhosas de todos os glaciares. Almoçamos uma sopa quente e restauradora no restaurante localizado em uma península remota em meio àquele lago, seguida por um talharim a bolonhesa e um pudim de caramelo.
Já comemos coisas melhores, mas levando em conta o lugar inóspito em que estávamos, açoitados pela chuva fria, pelo vento cortante, e pelo rugir do estômago (que às duas da tarde já dava sinal de impaciência), caiu como um manjar divino.
Já passava das 5 da tarde quando chegamos exaustos de volta ao Lar Aike, loucos para nos aquecer com um bom banho, e um chocolate bem quente.
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No dia seguinte, uma grande aventura nos esperava.
Seguimos rumo norte em direção a uma cidadezinha chamada Los Antigos, a cerca de 700 quilometros de El Calafate, a maioria deles em estrada não pavimentada, que aqui são chamadas de “rutas de rípio”.
Nosso plano de viagem previa uma parada estratégica em Governador Gregores, a cerca de 400 quilômetros do ponto de partida, para reabastecimento, e de lá seguiríamos para Los Antigos.
Apesar das vistas deslumbrantes, a estrada é muito ruim, e boa parte dela está em obras.
Por causa dessas obras, em alguns pontos tivemos que fazer um verdadeiro raly em meio a montanhas de cascalho, exigindo bastante de My Lady, que chegou a andar em elevações com inclinação lateral de quase 40 graus, sem apelar para a reduzida.
Essas obras provocaram uma imensa confusão no nosso sistema rudimentar de navegação, que passa ao largo do GPS ou de qualquer meio eletrônico que pudesse nos ajudar.
Acabamos perdendo a saída para Governador Gregório, e quando percebemos, já era tarde para voltar.
O nível de combustível estava perigosamente baixo, e continuava caindo, em que pese todo o meu esforço (e também de My Lady) para economizá-lo.
Com a ajuda do computador de bordo, tratei de aliviar ao máximo o pé do acelerador, soltando o carro na banguela durante as descidas, conseguindo uma média de 20 quilômetros por litro.
O pior de tudo é que não passava uma alma viva naqueles confins. Os únicos com os quais cruzamos – dois rapazes em uma caminhonete Hilux, funcionários de uma empreiteira que asfaltava aquele trecho da estrada, e que parou a muito custo após nossos insistentes sinais – dispuseram-se a nos ceder alguns litros de diesel, mas a falta de uma mangueirinha (nunca se esqueçam de portar uma no carro. É leve, não ocupa espaço, e nessas horas, é a salvação da pátria...) impediu a transferência do precioso líquido.
Mais ainda : os dois caras, com muita má vontade, nos informaram que o vilarejo mais próximo (Bajo Caracoles) estava a 50 quilômetros dali, e o computador de bordo indicava uma autonomia de apenas 30...
Seguimos assim mesmo, em meio à escuridão, fazendo um esforço hercúleo para economizar as últimas gotas que nos restavam, e já estávamos até conformados com a idéia de dormir na estrada, quando ao longe, muito longe, vislumbramos algumas luzes.
Era Bajo Caracoles, que estava um pouco mais próxima do que nos havia sido informado.
Chegamos ao posto de combustível/bar/hospedagem daquilo que se convencionou chamar de vilarejo, mas que não passava de meia dúzia de casas, tendo a lua cheia como única testemunha.
Havíamos percorrido exatamente 615 quilômetros sem reabastecer, e nos restavam apenas 4 litros no tanque.
Uma sensação de alívio e euforia tomou conta de nós, que ríamos nervosamente como crianças, depois de sofrer tanto com a imprevisibilidade!
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Já passava das dez quando chegamos finalmente a Los Antigos, onde está situada uma das passagens para travessia ao Chile. Ficamos surpresos ao saber que o melhor hotel da cidade – cuja beleza nos impressionou, sobretudo pela localização remota – estava lotado.
Tivemos que recorrer ao segundo (e creio que último) melhor hotel, muito simples, mas limpo e com bom atendimento.
Jantamos em um restaurante muito simpático especializado em parilllas (seleção de carnes e miúdos de boi, frango e porco grelhados e levados à mesa em uma chapa de ferro bem quente), tomamos um vinho local de qualidade discutível, e dormimos o sono dos justos, sonhando com a aventura que vivemos e com aquela que nos aguardava no dia seguinte.
Até a próxima!
Vinicius e Marcia
(*) Nome do famoso filme de Billy Wilder, retratando a decadência de uma atriz do cinema mudo, magistralmente interpretado por Gloria Swanson, cujo título original é Sunset Boulevard (1950), que eu não canso de rever.
Foi a melhor denominação que encontrei para rotular esse capítulo, em homenagem a tudo que vimos nesse trecho espetacular de nossa aventura. |
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