Acordei naquele domingo como se fosse um domingo qualquer. Demorou um pouco para cair a ficha e me dar conta de que, de fato estava, as férias haviam começado.
Arrumamos tudo (roupas, remédios e livros, muitos...) rapidamente, e saímos em direção a Castro, no Paraná.
Porque Castro?
Bem, é que foi em Castro que morreu, em 1830, meu tetravô, o ilustre Manoel Lopes Branco da Silva, corregedor e ouvidor geral do Paraná por nomeação de Dna. Maria, a Louca, em 12 de outubro de 1789, e fundador da cidade de Antonina, na região da Graciosa, PR, onde sua primeira providencia foi o de mandar erguer um pelourinho, “símbolo da justiça que consistia em uma grossa madeira com as quatro argolas de ferro e braços para os lados, sendo rematado por um cutelo.” Então tá!
Interessante na vida dele, como bem assinalou o primo de meu pai em curiosa carta descrevendo o perfil histórico do meu tetravô, é que com o advento da independência, Manoel Branco, em lealdade à Coroa Portuguesa, houve por bem renunciar ao cargo de magistrado supremo da província.
Infelizmente, essa é uma espécie extinta na nossa vida política. Não consigo imaginar hoje alguém abrindo mão da regalia de um bom cargo por mera lealdade a El Rey.
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Pois bem. Chegamos em Castro já tarde, sem maiores incidentes, exceto por uma ultrapassagem espetacular na Castelo Branco. Eu estava na minha, na pista do meio, ouvindo Bob Marley bem relaxado, quando nem tive tempo de me assustar ao ver uma Ferrari à minha direita e um Porshe à esquerda, os dois a bem mais de duzentos, seguidos por uma esquadra de porshes que tentavam acompanhar o ritmo frenético dos dois que iam à frente.
Legal, acho que acordei mesmo!
Ainda deu tempo de comermos em um self-service em Castro antes de nos hospedarmos no melhor hotel da cidade - o que não significa grande coisa (aliás, nem lembro do nome...)
No dia seguinte fomos à Igreja matriz, atrás de informações sobre meu ilustre antepassado.
Fiquei muito animado ao conseguimos o livro de óbitos do período de 1828 a 1832, mas justamente os registros de 1830 estavam totalmente ilegíveis, provavelmente por conta da péssima qualidade da tinta utilizada, que acabou borrando por completo. Uma pena. Acho que vou ter que prosseguir minha pesquisa em Portugal.
Ali perto de Castro há muito esporte de aventura para fazer.
Fomos a uma pequena cidade chamada Tibagi – muito conhecida pelas atrações radicais.
Hospedamo-nos em um hotelzinho meio metido a besta – caro e desconfortável – chamado Formiga da Figueira (acho que só sobraram as formigas, porque a figueira já era), e contratamos logo um rafting com um francês de poucas palavras chamado Allan, que foi instrutor da equipe de canoagem brasileira em Sidney.
Embarcamos em um percurso dito como nível 4. Confesso que fiquei meio assustado ao topar. Assustado não por mim, que já havia feito antes as rápidas em Puerto Mont, mas pela Márcia, que não sabe nadar e morre de medo de água.
O fato é que o tal percurso mostrou-se um fiasco. As corredeiras não arrancaram sequer um uh! da Márcia, e não exigiram o menor esforço. Que decepção!!
No dia seguinte fizemos uma trilha bem legal para duas cachoeiras (Sta. Rosa e Puxa Nervos). Claro, já que fui até lá, não poderia deixar de dar um mergulho na água fria do arroio, não é?
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De Tibagi seguimos até Lages. Chovia muito, ficamos no Grande Hotel mesmo, bem meia-boca no centro, só para pernoitar.
No dia seguinte, fomos aos bancos fazer pagamentos, e ficamos surpresos com os marcos arquitetônicos da cidade, sobretudo da Igreja matriz, que por fora é linda, mas por dentro não pudemos entrar, pois o sacristão estava ocupado, ou melhor, almoçando.
De lá seguimos para São Joaquim. Confesso que esperava muito mais da cidade, talvez imaginando encontrar uma Campos de Jordão em Sta. Catarina. A verdade é que a vila é muito feia e sem qualquer atrativo, salvo pelas lindas maçãs que pipocam em todo o lugar, vermelhas, carnudas, suculentas, muito saborosas.
Prosseguimos para a Serra do Rio do Rastro, a poucos quilômetros dali, tentando reviver uma viagem que fizemos há 44 anos atrás, quando parti com meus pais e irmãos ao Uruguai numaVemaguete – isso sim, é que é aventura – e lembro de termos passado por essa mesma estrada, linda, maravilhosa, talvez não tão bem pavimentada, mas sempre acompanhados por aquela lua amarela e sonolenta.
Na estrada, fomos alcançados por uma neblina muito densa e espessa. Não dava para enxergar um palmo frente ao nariz, e foi com muito, mas muito custo, que conseguimos chegar ao Hotel Eco Resort. A salvação, pensei eu.
Na recepção, pö, que facada. Eles estavam recebendo um grupo, diziam não ter vagas, mas com muito esforço, eles nos fariam o favor de ceder um chalé luxo, por módicos R$ 690,00 a diária.
Eu me senti refém dos anfitriões, mas nem passaria pela minha cabeça prosseguir viagem com aquela neblina. Joguei a toalha, e a muito contragosto, aceitei o contrato.
Fomos recebidos com champanhe, e antes de conhecermos o chalé, resolvemos almoçar (almoço, jantar e café da manhã incluídos na diária. Vinhos e outras bebidas à parte).
Uau, saboreamos um arroz de bacalhau preparado à moda catalã, que estava desconcertante. Mas o tiro de misericórdia veio mesmo com os morangos flambados em calda de framboesa e toques de chocolate, misturados com algumas sementes de abóbora secas, conferindo um toque genial e deixando tudo nos trinques mesmo.
A cozinha é ampla e linda, com tudo à mostra, lembrando um pouco o Restaurant Los Caracoles, de Barcelona, onde se entra pela cozinha mesmo, com visão plena de todos os pratos em preparação naquelas imensas chapas, grelhas e braseiros. Lulas, pescadas, enguias, costeletas de cordeiro, tudo feito ali mesmo em meio à fumaça e o fogo. É o máximo!
Com o passar das horas eu comecei a achar que não tinha nada de caro no Eco e cada vez mais me convencia disso.
Fomos super bem tratados, e no dia seguinte, após percorrer a trilha para a Cascata Negra (lindíssima!!) almoçamos no hotel um arroz de pato (mera coincidência com o arroz de bacalhau do dia anterior) que sem dúvida, foi o melhor que já experimentamos. Imbatível. Sou capaz de voltar só pelo arroz de pato.
Bom, é isso por hoje. Amanhã vamos descer toda a Serra do Rio do Rastro e subir a Serra da Rocinha, que deve ser linda e nos levará a Cambará do Sul, já em solo gaúcho.
Até!
Vinicius e Marcia |
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