Los Antigos é uma cidade argentina na fronteira com o Chile, adjacente a Chile Chico, já no lado chileno. É um dos chamados “passos”, ou seja, pontos de passagem onde é feita a tramitação dos documentos de entrada e saída – inclusive do carro.
Percorremos alguns dos mirantes da cidade, visitamos a praia à beira do lago, e fomos ao posto de turismo no lado argentino para nos informar sobre o ferry boat chileno que poderia nos levar ao lado norte do Lago Buenos Aires, desembarcando já bem perto do asfalto e poupando 520 kms de tortuosas estradas de rípio.
Fomos informados pela simpática funcionária que a balsa sairia às 14 horas, e que precisaríamos estar na fila a partir do meio-dia para conseguir um lugar.
Pois bem, lá fomos nós. Fizemos a tramitação toda, que foi muito dura do lado chileno.
Acabamos levando “uma geral” da autoridade responsável pelo controle sanitário, que buscava desesperadamente uma fruta, sem nos preocupar com nada.
O problema ficou mais sério quando a tal autoridade resolveu examinar a bolsa da Márcia.
Ainda bem que não encontraram as maçãs que estavam ingenuamente esquecidas (e não escondidas...) lá no fundo.
Ufa! Foi por pouco, pois o transporte de frutas de um país estrangeiro para o Chile é considerado crime, e nós poderíamos, sem querer, ter entrado em uma grande fria.
Mas não foi só, como dizemos nós advogados.
Chegamos à fila da balsa antes do meio dia e fomos informados que ela não sairia, porque havia muito vento. Pior : a do dia seguinte já estava toda reservada.
Poderíamos voltar, e fazer a tramitação metódica da fronteira mais uma vez (acho que os Carabineiros iriam nos revistar novamente a ponto de nos deixar pelados...), subindo até Bariloche (era nosso plano original), ou seguir pela longa estrada de rípio que contorna uma boa parte do lago, até chegar ao asfalto já próximo de Coyhaque. De lá pegaríamos o ferry que nos levaria a Puerto Mont.
É, acho que baixou o espírito aventureiro. A estrada é lindíssima, beirando o lago de águas muito azuis nos primeiros 350 kms, mas foi um verdadeiro martírio para nós, e um teste de fogo para My Layd.
Ela sofreu tudo que um carro possa suportar, e não estrebuchou.
O diabo é que a estrada não terminava. A velocidade média era de 50 kms por hora, e portanto tivemos que percorrer 10 horas de estrada muito, mas muito ruim mesmo até chegar ao asfalto, e subir toda a cordilheira no meio do pó, das pedras, dos buracos, da chuva e da neve que começou nos fustigar assim que anoiteceu.
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Chegamos ã cidade sãos e salvos, mas exaustos, e fomos jantar no Ricer – lugar bem simpático, com poltronas muito confortáveis, salões bem aconchegantes, boa comida e ótimo serviço.
Compramos os tickets para embarcar no ferry a Puerto Mont. Saiu salgado – US$ 680.00 o preço para embarcar o carro + uma cabine dupla só com café da manhã (almoço e jantar oferecidos pela módica quantia de US$ 8.00 o prato).
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De Cohyaque fomos a Puerto Chacabuco, onde se encontra um porto muito movimentado. Foi uma das cidades mais feias que encontramos no caminho. Paradoxalmente, numa das colinas de Chacabuco (pronuncia-se chácabúco, bem forte e de forma bem áspera) foi instalado um hotel 5 estrelas maravilhoso, mas totalmente incompatível com a feiúra da cidade. Jantamos lá, e tratamos de entrar na fila do barco, que só saia às 7 da manhã do dia seguinte, mas já recebia os viajantes que quisessem dormir a bordo naquela mesma noite.
Bem, como era de se esperar, as acomodações da nave mista (carga/passageiros) são mais do que espartanas. Nossa cabine tinha um beliche, uma pequena mesa e uma cadeira, além de um minúsculo banheiro com chuveirinho e água quente.
Apesar de tudo funcionar, e de ser tudo muito limpo, parecia que estávamos em um barco russo, sem exagero.
Não apenas as modestas instalações indicavam isso, mas também a comida rústica (no almoço uma espécie de lagarto fatiado com purê de batatas que estava muito bom, e no jantar uma posta de salmão mal passado que eu nem toquei) e na tripulação, de poucas palavras, cujo cozinheiro era aliás enfezado, do tipo que chega intimando pessoalmente os passageiros que estavam despreocupados com o horário da xepa, assistindo a um filme no salão.
O lado bom é que nós poupamos 700 quilômetros da maldita estrada de ripio, e já saímos nos asfalto, para lá ficar.
Não foi de todo mal. A travessia pelos fiordes apresenta paisagens lindíssimas de picos nevados e vulcões fascinantes ao longo de todo o caminho.
O barco navega muito devagar, e apesar do sol forte, era impossível ficar no convés por mais de uma hora sem se incomodar com o frio e com o vento.
À noite, depois de jantar, tomávamos vinho na cabine (nós levamos as garrafas e fizemos bem, porque no jantar eles só servem refresco de milho nas refeições...), e assistimos do beliche a filmes de faroeste e suspense no DVD do nosso micro. Estava bem gostoso.
Chegamos a Puerto Mont às 7 da manhã. Na saída do barco, ajudei um casal de espanhóis muito antipáticos, cuja camionete amanheceu com o pneu vazio. Emprestei o meu pequeno compressor a eles (nunca esqueça de andar com um no carro. Custa muito pouco e salva a pátria...), que resolveu o problema (deles) em poucos minutos. Mal agradeceram.
Nem ficamos na cidade, que é maravilhosa, mas que já conhecíamos bem de outros carnavais.
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Seguimos diretamente para Chillan. Ficamos hospedados uma noite no Grande Hotel para descansar um pouco, após tantas e tantas.
Fizemos algumas comprinhas, cortamos o cabelo, e nos mandamos no dia seguinte em direção a Termas de Calquenes, já perto de Santiago, que tinha um sabor muito especial para nós, pois havíamos estado lá há exatamente 20 anos...
Demoramos um pouco para encontrar o caminho, pois em 20 anos as coisas mudam muito.
Não havia mais aquela estradinha de rípio, em ótimo estado, que nos levava ao Hotel. Agora tudo está asfaltado, aliás, muito bem asfaltado, em que pese a ausência de sinalização adequada indicando o acesso às Termas.
Ao chegar ficamos sabendo que o hotel havia mudado de mãos. O novo proprietário, aparentemente suíço, reformou tudo e restituiu ao hotel sua forma original. Ficou impecável.
Apesar do preço super salgado (US$ 300.00 por dia com meia pensão), decidimos ficar e desfrutar daquele lugar maravilhoso, com jardins muitíssimo bem cuidados, silêncio só quebrado pelo canto dos pássaros, e um enorme bosque para caminhar e explorar.
Foi bom demais!
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No dia seguinte seguimos para Santiago, a 100 kms.
Não pretendíamos ficar em nenhuma cidade grande, exceto nas situações em que houvesse uma forte justificativa.
Nesse caso, a melhor delas é que em Santiago reside um casal de amicíssimos nossos muito queridos, Dan & Marité, ele americano e ela chilena. Nos avistamos com alguma freqüência, em São Paulo ou em Santiago, e temos uma especial admiração por um jogo de dominós chamado “duble five”. Digladiamo-nos até a morte em partidas que duram cerca de 45 minutos cada. Dessa vez Dan estava com muita sorte e ganhou todas as quatro partidas, fazendo jus ao troféu “Don King” que ele gentilmente me ofereceu como consolo, e que vou guardar com carinho.
Ficamos muito bem hospedados durante duas noites na casa deles, situada no elegante bairro de Vitacura.
Conversamos muito, comemos muito e bebemos muito. Que delícia ter bons amigos!
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Na tarde do dia seguinte seguimos para Los Andes, no pé da Cordilheira dos Andes, a cerca de 100 quilômetros de Santiago. Nossa idéia era a de ficar hospedado lá naquela noite e seguir no dia seguinte de manhã para Mendoza, apreciando durante o dia a travessia e o visual exuberante das montanhas.
Chegamos à noitinha, e fomos direto ao melhor hotel da cidade (Plaza), que apesar do nome não era grande coisa, e ademais, estava lotado.
Depois de percorrer todos os pseudo-hotéis e apelarmos até aos motéis (de quinta categoria), acabamos ficando em uma hosteria bastante simples mas muito simpática, cujo nome sinceramente não recordo.
Foi o melhor que encontramos, e deu para dormir uma boa noite até o dia seguinte, mas isso é estória que fica para a próxima.
Até
Vinicius e Marcia
(*) O título é uma das minhas músicas preferidas dos Beatles, do disco Let it Be. Ela diz tudo sobre o nosso elevado estado de espírito durante a maravilhosa viagem. Significa a longa e tortuosa estrada. Tudo a ver, não é? |
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