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Nos Rincões do meu Torrão
22 de março de 2008, Pelotas

Para mim, o melhor das férias é não ter que fazer um montão de coisas. Não preciso ler diariamente o Estadão, nem checar os highlights da Gazeta Mercantil e do Valor, muito menos os obituários (estranha mania que me acometeu há alguns anos), e tampouco a rançosa “Veja” aos sábados. Limito-me a sapecar a primeira página da Folha e clicar em uma ou outra notícia que me chame a atenção, só para ter certeza de que não há nada de novo no reino de Lula. Também não tenho feito a barba. Que delícia não ter que depilar a face compulsória e diariamente... Mas isso tem um preço. Sou obrigado a ouvir todo o dia da Márcia aquela gozação de sempre – espinhento, porco-espinho, urtigão, e outros tantos. Faz parte do roteiro.

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Bem, nós saímos do Eco Resort depois de tomar um café da manhã imperial, envoltos na mais espessa neblina, como em um conto de Sherlock Holmes. À medida que íamos descendo a serra, o tempo foi abrindo e dando lugar a paisagens indescritíveis, em meio à mata repleta de araucárias que resistem bravamente à extinção, crescendo entre riachos e cascatas. A estrada é toda asfaltada, bem sinalizada, e fácil de percorrer. Chegamos ao sopé das montanhas em Lauro Mulller. Depois seguimos para Criciúma, e nem paramos, porque queríamos fazer a subida da serra da Rocinha ainda de dia, em direção novamente às montanhas. Passamos por Forquilhinha, Turvo, e Timbé do Sul – região do arroz - e seguimos em direção a São José dos Ausentes, no topo da serra. A estrada é ruim demais, toda em cascalho empoeirado, repleta de buracos, valetas, facões e costelas de vaca. Nesse ponto, permitam-me dedicar um pequeno espaço à nossa Hilux (mundialmente conhecida como a preferida dos Taleban), e que passamos a chamar carinhosamente de My Lady. O carro é espetacular. Não acusa o peso da blindagem nem nas subidas mais íngremes, e está sempre pronta para nos conduzir com absoluta segurança nas situações mais precárias, oferecendo muito conforto e potência, além de espaço de sobra para as malas. Não chia, não reclama, não refuga, e está sempre prontinha para uma aventura radical. Mais ainda : é tão econômica (mero eufemismo para designar pão-dura) quanto meus sócios (e isso não é pouco). O confiabilíssimo motor diesel garante uma autonomia média de 550 kms sem reabastecer, e uma velocidade de cruzeiro (em boas estradas) de 140kms/hora - o que também não é pouco. Sem dúvida, foi a melhor escolha.

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Ao chegar no topo daquele verdadeiro calvário, já em terras gaúchas, decidimos seguir diretamente em direção a Cambará do Sul, e abortamos São José dos Ausentes, que ficava meio fora de caminho. A estrada continuava muito ruim, cheia de poeira e pedras, e após longo percurso, chegamos a Cambará já tarde, exaustos, e com muita fome. Jantamos uma comida bem caseira no Casarão, logo na entrada da cidade, cujos proprietários são muito simpáticos. É o melhor (e coincidentemente o único) restaurante da cidade. De lá fomos para o Hotel Parador – Casa de Montanha, onde ficamos acomodados em uma cabana. Cabana? É isso mesmo, uma cabana, mas muitíssimo confortável, inspirada em um projeto já implantado com muito sucesso na África do Sul. Os bangalôs oferecem todo o conforto do mundo (inclusive banheiro privativo com chuveiro quente e toalhas aquecidas), são muito aconchegantes e bem decorados. A maioria tem uma varanda muito gostosa com direito a spa e vista deslumbrante para o vale. Espero que as fotos anexadas ao blog proporcionem uma visão bem clara das acomodações. Deu até para tentar dar uma pescadinha, mas eu não peguei nada. As águas ali são muito rápidas, e os peixes estavam ariscos. Não poderia deixar de fazer menção importante às minhocas gaúchas. São graúdas, manhosas, difíceis de pegar. Lutam bravamente contra o anzol, e esgueiram-se entre os dedos de forma rápida, procurando evadir-se de qualquer forma, talvez sabendo do empalamento que as espera. Jantamos um filé de javali com polenta. Eu nunca tinha comido. Estava divino, e foi muito bem acompanhado pelo Alto de Las Hormigas 2006, bem seco, potente e saboroso. Fora da temporada, a diária nos custou R$ 300,00, com direito a um decente café da manhã. Acabamos ficando um dia a mais para relaxar e conhecer a região, e aproveitar um pouco mais da régia hospitalidade gaúcha, sobretudo de nossos anfitriões - que nos trataram tão bem – e o visual indescritível da região.

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Fizemos uns bons trekkings. O primeiro para o Canyon do Itaimbezinho, fantástico, imponente, grandioso, lembrando como é (ou deve ter sido) Xanadú, o tal do horizonte perdido, Vizinho ao Nirvana. O mais interessante é que os canyons exibem florestas, bosques e cachoeiras em suas bordas majestosas, que podem ser vistas de qualquer ponto, sobretudo dos vários mirantes que oferecem uma visão panorâmica. Sensacional. É de tirar o fôlego, e certamente impressionará todos os que curtem os espetáculos proporcionados pela natureza selvagem. Aproveitamos para visitar a Cachoeira Negra : linda, especialmente pelo contraste das águas claras em pedras escuras. São caminhadas gostosas, e muito fáceis de fazer. À tarde, antes de sairmos, fomos visitar o Canyon Fortaleza, assim chamado porque as encostas das altíssimas falésias fazem lembrar uma fortificação. Esse canyon é ainda mais profundo que Itaimbezinho, mas não tem o mesmo charme. Valeu pela caminhada valente entre rios e cachoeiras, e pela vista lá do cume, também impressionante. No caminho, é possível visitar a Pedra do Segredo, muito peculiar, verdadeira escultura feita pela natureza, que após anos e anos de muito vento, talhou uma pedra sobre a outra e as manteve perfeitamente equilibradas. Espero que essa foto saia também bem visível.

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Saímos de Cambará no final da tarde, rumo ao litoral. Apesar da péssima conservação da estrada de cascalho, a viagem é maravilhosa, pois enquanto se desce a serra, vai-se vislumbrando de outro ângulo todo o canyon da região até chegar ao sopé. Muito lindo mesmo. Chegamos à BR-101, e fomos em direção a Torres, o mais famoso balneário gaúcho. Hospedamo-nos em um dos melhores hotéis da cidade (o que também não significa muito), de quartos modestos, mas boa estrutura, com jardins bem cuidados e uma piscina grande e agradável. Fomos à praia no dia seguinte e imaginávamos passar frio, pois todos falam muito do vento gelado naquelas paragens. Qual o que... Nada de vento. Muito sol, belas falésias e praias longas, a perder de vista. Infelizmente, Torres é uma cidade totalmente descaracterizada em função da especulação imobiliária, que fez com que ela crescesse de forma totalmente desordenada, sem qualquer projeto urbanístico. Apresenta poucas construções de bom gosto, ao lado de muitas outras nem tanto. Foi bom para passar a noite e descansar, mas acho que não voltaríamos.

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Seguimos, no dia seguinte, para Porto Alegre, pois entre outras coisas, eu tinha que fazer a revisão dos 20.000 kms na My Lady. Hospedamo-nos em um apart-hotel em Moinhos de Vento, o bairro mais “in” de Porto Alegre, e como bem lembrou meu compadre Orley, verdadeira Ricoletta gaúcha, cheia de barzinhos e cafés nas calçadas, bons restaurantes, com muita gente bonita passeando, e construções magníficas. O dia estava lindo, e o nosso quarto proporcionava uma bela paisagem, com direito ao por do sol no Guaíba. Aproveitamos para fazer uma porção de coisas, tais como tomar a vacina contra a febre amarela (não dói nada), lavar a roupa suja, processar fotos, falar com alguns clientes que exigiam atendimento pessoal, buscar a apólice especial de seguro fora do Brasil, e mandar o carro para a concessionária (R$ 700 reais para a troca de óleo, filtros e pastilhas de freio dianteiras). No dia seguinte, seguimos para Pelotas (cerca de 400kms), e de lá pretendíamos já sair do Brasil por Chuí. Pelotas é uma cidade é muito bonita, e exibe construções magníficas da época em que o charque – produzido e processado naquela região - era a principal fonte de receita dos gaúchos. Agora um pouquinho de história : foi justamente a instituição de um tributo adicional sobre o charque (vulga carne seca) que funcionou como um estopim, levando a elite gaúcha a se insurgir contra o Império, dando início à épica Guerra dos Farrapos. A guerra durou dez anos, matou mais de 3.000 almas (naquela época era muita gente), e produziu líderes e heróis como Bento Gonçalves, Antonio Neto (para não falar de Giusepe e Anita Garibaldi), levando à declaração de independência do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, que por alguns poucos anos foram denominados República de Piratini e República Juliana, respectivamente. Apesar das maravilhosas construções e da renomada hospitalidade e simpatia do povo, Pelotas enfrenta os mesmos problemas que afetam as grandes cidades brasileiras. É incontável a presença de pedintes nos semáforos - e o que é pior, não se trata de crianças esmolando como as que vemos em São Paulo, mas de adultos gozando de boa saúde, que poderiam estar produzindo para si próprios e para a sociedade, mas que preferem recorrer ao execrável expediente de intimidar motoristas descuidados, provavelmente por ser mais vantajoso economicamente. O tráfego de automóveis na cidade é intenso, e a poluição visual idem, descaracterizando as belas formas arquitetônicas do passado, que vai ficando para trás no espelho retrovisor, até que um dia sumirá no horizonte do tempo. Por hoje é só. Amanhã sairemos do Brasil em direção às terras castelhanas, rumo ao badalado balneário de Punta Del Leste.

Vinicius e Marcia