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“Penso que cumprir a vida
seja simplesmente
compreender a paz,
e ir tocando em frente,
a vida, eu vou.
Como o velho boiadeiro,
Tocando a boiada,
Eu vou tocando os dias,
pela longa estrada,
a vida, eu vou.
Todo mundo ama um dia,
Todo mundo chora.
Um dia a gente chega,
No outro vai embora.”
Chegamos a Bahia Blanca por volta do meio dia, ao som da linda canção de Almir Satler, na interpretação magistral de Bethânia, cujos versos reproduzimos acima, e que dá o tom da nossa viagem.
Apesar do nome, de baía a Bahia Blanca não tem nada : a praia mais próxima fica a 100 kms de lá...
A cidade – assim como Comodoro Rivadavia, San Julian, Rio Galegos e Rio Grande - que se seguiram na nossa rota ao sul – reúnem pouquíssimas atrações turísticas, artísticas ou culturais, não merecendo muito destaque.
A economia nessa região é concentrada basicamente na exploração do petróleo, na mineração e na pesca. Para turistas como nós, são simples cidades-dormitório que servem para pouso dos que se dirigem a Ushuaia, a cidade do-fim-do-mundo, assim conhecida por ser a mais austral do planeta.
Nem por isso deixaremos de fazer algumas observações, que julgamos importantes.
A primeira delas é que exatamente ao sul da província de Buenos Aires, e ao norte da província de Rio Negro, começa a Patagônia, região inóspita, fria, árida, de vegetação rasteira, habitada por poucos homens, e muitas emas, alpacas e carneiros.
Durante nosso trajeto, enfrentamos o bloqueio geral decretado pelos fazendeiros argentinos, em protesto contra as medidas econômicas introduzidas pela presidenta (é com “a” mesmo...) Cristina Kirchner, dentre as quais a restrição à exportação de gêneros alimentícios, conjugado com o aumento brutal dos tributos sobre sua produção e venda, que deixaram os fazendeiros furiosos.
Os “paros” – assim chamados os bloqueios – afetavam apenas os caminhoneiros, e não veículos de passageiros. Ainda assim, enfrentamos longas filas nas estradas até conseguirmos permissão para seguir, acompanhada sempre de um respeitoso e sincero pedido de desculpas pelo transtorno, e de muitos panfletos justificando a atitude extrema.
A estrada para o sul (Ruta 3) é excelente. Bom piso, ótima sinalização, nada de fiscalização, proporcionando elevada velocidade de cruzeiro (ao redor de 140 km/h) com absoluta segurança, e permitindo concluir trechos de até 700 kms em um único dia, sem stress.
Nessas cidades, o que não falta são duas coisas : a primeira é a famosa centolla – caranguejo gigante pescado apenas em águas frias, delicioso, e preparado de todas as maneiras, que degustamos com prazer inúmeras vezes.
A outra é a idolatria dos argentinos que habitam essa região pelas Malvinas (ou Falklands, como queiram, que visitamos há alguns anos atrás, durante um cruzeiro à Terra do Fogo).
É impressionante a quantidade de monumentos, cartazes e faixas declarando a soberania Argentina sobre as ilhas. Em todo o lugar que se vá é possível ver alguma referência aos heróis da guerra, pobres meninos massacrados pelo exército profissional inglês. Os que não morreram foram humilhados, enxotados das ilhas , e ainda hoje, pouco reconhecidos pelo governo argentino.
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Na madrugada do dia 2 de abril acordamos com tiros de fuzil e metralhadora na avenida em frente ao hotel em que estávamos em Rio Grande. Pensamos em assalto, mas o barulho se intensificou de tal forma que ficamos assustados imaginando o pior, ou seja, o recomeço da guerra, ou - com um pouco de imaginação - a instalação de uma filial do PCC naquelas bandas....
Na verdade, tudo era fruto do ensaio que estava sendo feito pelas forças armadas em comemoração aos 26 anos da guerra, com direito a desfiles militares, vídeos, exposições em barracas montadas no calçadão e discursos patrióticos inflamados dos veteranos e seus familiares, além dos políticos que nessa hora, sempre querem tirar uma casquinha.
Seguimos em direção ao sul e atravessamos o estreito de Magalhães ao cair da noite, na última balsa, ingressando em território chileno.
Aliás, entrar e sair do território chileno foi o que mais fizemos nessa viagem, pois não há como chegar ao extremo sul do continente sem passar pelo Chile.
Não sabemos bem o que houve no passado, mas, ao que tudo indica, os argentinos dormiram no ponto e permitiram que os chilenos se apoderassem de quase toda a extensão do Estreito de Magalhães, conquistando a passagem para o Atlântico. Com isso, os argentinos que habitam o extremo sul são obrigados a fazer o trâmite imigratório junto às autoridades chilenas toda a vez que queiram se deslocar às províncias do norte, e vice-versa.
Chilenos e argentinos estão permanentemente em estado de alerta. A região do estreito é toda minada, e os dois países quase foram à guerra após longa discussão sobre a soberania de três pequenas ilhotas ao sul da Terra do Fogo, afastada apenas após intervenção arbitral do Vaticano, que confirmou o domínio chileno.
Uma pausa para a sessão história : Para os que aqui navegam, Fernão de Magalhães foi um importante explorador lusitano, que por não encontrar apoio do governo português, acabou convencendo os reis da Espanha a financiar a aventura de encontrar nova passagem para as Índias.
Corajoso e intrépido, ele partiu da Espanha em 1519, com cinco barcos e 250 tripulantes. Descobriu, a duras penas (com direito a tempestades homéricas, constantes motins, fome, sede, doenças de todo o tipo e outras desgraças), o canal que liga os dois oceanos, e que recebeu o seu nome.
Veio a falecer em 1521, em razão de uma flechada recebida de selvagens, na ilha de Macatã, na região das Filipinas.
A viagem de volta a Espanha durou três anos, e poucos sobreviveram para contá-la. Dos cinco barcos que zarparam, apenas um completou a viagem. Dos 250 que embarcaram na Espanha, apenas 18 chegaram com vida.
Vale a pena ler um pouco sobre essa frenética aventura, que se iguala à de Colombo, se não for ainda mais grandiosa.
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Bem, de volta à nossa viagem – não tão arriscada, nem tão épica quanto a de Magalhães, mas muito atribulada – atravessamos o canal e percorremos mais 100 kms de estrada de terra chilenas em péssimas condições, até a fronteira argentina, onde começa novamente o asfalto.
Mais uma vez, My Lady mostrou suas imensas qualidades, conduzindo-nos com segurança e conforto durante todo o percurso e ignorando as crateras, os quebra-molas e as enormes fendas daquele calvário.
Chegamos a Ushuaia tarde da noite, e começamos a peregrinação em busca de um bom hotel. Após muita pesquisa, ficamos surpresos com a diversidade de padrões e de preços.
Acabamos nos hospedando no “Altos de Ushuaia”, localizado na zona hoteleira, que fica no alto das montanhas, com uma vista maravilhosa de toda a cidade. Um grande achado, pois como é baixa temporada, o nível de ocupação dos hotéis é muito baixo, e por conseguinte, também as tarifas.
Negociamos uma suíte jr. imensa, com uma king size digna de reis e varanda com direito à linda vista do vale, por US$ 130.00/dia, com café da manhã e estacionamento incluídos.
Do hotel é possível alcançar a pé o parque que conduz ao Glaciar Martial. Foi uma caminhada boa, montanha acima, passando por uma floresta de rara beleza, com riachos e quedas d’água em abundância.
A cidade conta com inúmeros restaurantes, a maioria oferecendo como atração principal a deliciosa centolla, já comentada. Para os que querem uma boa dica, recomendamos a Cantina Fuegüina de Freddy, no centro da cidade, onde ela é servida gratinada.
Outra boa alternativa – apesar de mais cara e sofisticada – é o restaurante francês “Chez Manu”, no alto da serra, pertinho do hotel, de onde se descortina toda a cidade, e que serve pratos da cozinha francesa (e também argentina) preparados com perfeição.
Fomos também ao Parque Nacional Tierra de Fuego, lugar excelente para trilhas e caminhadas, cuja atração principal é o trenzinho do fim do mundo. Trata-se de uma locomotiva a vapor que conduz os visitantes ao antigo presídio, onde no passado foram encarcerados vários prisioneiros políticos.
Imagino que as condições de sobrevivência dos pobres presidiários naquele local não eram muito diferentes dos que foram compulsoriamente hospedados por Stalin nos Gulak.
O frio no inverno é próximo aos 20º. abaixo de zero, o vento é cortante, e as noites são intermináveis. Não era preciso muros ou cercas, porque eles simplesmente não havia para onde fugir.
Fizemos também um passeio de catamarã na baia de Ushuaia, visitando as ilhas habitadas por leões marinhos e pássaros de todo o tipo, exceto os pingüins, que já haviam voltado para a casa na Antártida.
Depois de tantas estripulias, saímos de Ushuaia em uma linda manhã de sol, rumo ao Parque Nacional de Torres Del Paine, no Chile. Para isso, precisaríamos atravessar o estreito de Magalhães antes das 11, para chegar a Porvenir até as 14 horas, em tempo de alcançar o ferry para Punta Arenas, e de lá seguiríamos para Porto Natalles, já próxima ao parque.
No entanto, ao chegarmos ao estreito fomos informados de que não havia ferry naquele dia, e que a reserva para o dia seguinte já estava esgotada.
Não nos restou outra alternativa senão seguir de volta para Rio Grande fazendo o mesmo caminho da ida, onde acabamos pernoitando, para seguir no dia seguinte a Porto Natalles.
Bom, por hoje é isso. Semana que vem tem mais, com os pontos mais atraentes do roteiro, que são Torres Del Paine e El Calafate.
Quem viver, verá.
Vinicius e Marcia
(*) Célebre frase pronunciada por Julio César ao chegar à Ásia em 47 A.C., após derrotar Fernases, rei do Ponto, e estabelecer novos limites do Império Romano. Significa “Vim, vi, e venci.” |
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